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Como as Emoções e o Julgamento Modulam o Tempo de Reação

  • Foto do escritor: Markus Lothar Fourier
    Markus Lothar Fourier
  • 16 de dez. de 2025
  • 6 min de leitura

Imagine um tenista prestes a sacar. Não há momento no jogo onde o tenista tenha mais controle do que no próprio serviço. No entanto, no momento do toss, em milésimos de segundos, a atenção muda de foco, a cabeça pensa no que não precisa pensar e o movimento sai "travado", atrasado ou impreciso. A explicação que todos dão para isso é o nervosismo. E, de certa forma, essa afirmação está correta. O problema é que essa explicação não ajuda muito a resolver a questão. Por isso, neste post, quero detalhar melhor o que acontece e como podemos treinar para mitigar acontecimentos como este. 


Na Psicologia do Esporte, esse nervosismo é entendido não como apenas um medo, mas sim um erro de processamento. É o momento em que a mente consciente tenta assumir o controle de um corpo que sabe fazer o trabalho melhor sozinho. Sim, se você já leu "O jogo interior do tênis", é exatamente sobre isso que estou falando, mas aqui quero trazer a ciência do que está por trás do livro de Timothy Gallwey. 


Vamos então explorar a ciência por trás desse fenômeno, unindo as evidências neurofisiológicas modernas à filosofia clássica do "Jogo Interior", para explicar como as emoções sequestram o tempo de reação e o que fazer para recuperar a fluidez.


1. A Anatomia do Conflito: Ego 1 versus Ego 2

Para entender por que atletas experientes falham sob pressão, precisamos primeiro entender quem está no comando. W. Timothy Gallwey, em sua obra fundamental O Jogo Interior de Tênis, propôs uma distinção que revolucionou a forma de pensar o desempenho: a existência de dois "eus" operando no atleta.


  • O Ego 1 (O Julgador): É a voz consciente, analítica e crítica. É a parte da mente que diz "dobre mais os joelhos", "cuidado para não errar" ou "esse foi um péssimo slice".

  • O Ego 2 (O Executor): É o corpo, o sistema nervoso autônomo e a vasta memória muscular acumulada. É a inteligência silenciosa que calcula trajetórias complexas e coordena milhares de fibras musculares sem precisar de palavras.


O atraso no tempo de reação e a perda de precisão ocorrem quando o Ego 1 não confia no Ego 2. Sob pressão, o Ego 1 tenta microgerenciar a ação. Gallwey descreve isso como uma inversão de papéis desastrosa: a mente consciente, que é lenta e limitada, tenta ditar ordens para um sistema motor que é rápido e complexo.


"O problema não é que você não sabe o que fazer; o problema é que você pensa demais enquanto faz. [...] A desconfiança no corpo leva à tensão, e a tensão interfere na fluidez."


Um exemplo clássico que com certeza todo tenista se identifica é aquele quando a bola sobra alta e lenta no meio da quadra e, antes de bater, nossa cabeça pensa em duas ou três coisas diferentes sobre o que fazer com essa bola tão fácil. Quando isso acontece, não é incomum que “o presente” vá parar na rede ou para fora. Quando temos muito tempo para pensar, o Ego 1 entra em ação e atrapalha tudo. 


2. O Monitoramento Explícito: A Ciência por Trás da "Desconfiança"

O que Gallwey descreveu intuitivamente como a interferência do Ego 1 é hoje validado pela neurociência sob o termo Monitoramento Explícito.


Atletas de elite operam predominantemente através da memória procedural — um "piloto automático" gerido por estruturas subcorticais (como o cerebelo e gânglios da base). Quando a ansiedade surge, o atleta regride. Ele tenta controlar conscientemente (via córtex pré-frontal) movimentos que deveriam ser automáticos.


  • O Gargalo Cognitivo: O processamento consciente é sequencial e lento. Ao monitorar o passo a passo da ação ("como estou segurando a raquete?"), o atleta cria um gargalo.

  • O Resultado: O tempo de reação aumenta drasticamente porque o sinal neural precisa passar por uma verificação consciente desnecessária antes de chegar aos músculos. O movimento, antes fluido, torna-se segmentado e robótico. É como se o Ego 1 fosse aquele gerente que cria uma burocracia porque não confia em quem trabalha com ele, só que essa burocracia só atrapalha. 


3. O Julgamento como "Freio de Mão" do Corpo

Um dos conceitos mais potentes trazidos por Gallwey é o impacto do julgamento na fisiologia. Quando o atleta rotula uma ação como "ruim" ou "terrível", ele dispara uma resposta emocional que tensiona o corpo.


Essa tensão não é abstrata; ela é biomecânica. Em estados de alta ativação emocional, observa-se o fenômeno do congelamento dos graus de liberdade.


  • Co-contração Muscular: A ansiedade faz com que os músculos que aceleram o movimento (agonistas) e os que freiam (antagonistas) se contraiam simultaneamente.

  • Atraso Neuromuscular: O corpo precisa lutar contra sua própria rigidez para se mover. Isso gera um atraso mensurável entre a intenção e a ação. O atleta sente-se "pesado" ou "preso", não por falta de força, mas por excesso de interferência mental e tensão física.


4. O Sequestro do Olhar: Atenção vs. Preocupação

A precisão depende de onde e como o atleta olha. O conceito de Olhar Silencioso (Quiet Eye) refere-se à fixação visual estável no alvo milissegundos antes da ação.


O Ego 1, com sua tagarelice constante, sabota esse processo. Segundo a Teoria da Eficiência do Processamento, a preocupação (ansiedade cognitiva) compete pelos mesmos recursos neurais necessários para manter o foco visual.


Ao invés de observar a bola ou o alvo com clareza ("ver o que é", como propõe Gallwey), o atleta projeta seus medos no alvo. O olhar torna-se errático, buscando confirmação de erro em vez de dados para a execução. Sem dados visuais precisos, o Ego 2 não consegue calcular a resposta motora corretamente.


5. Estratégias de Intervenção: Silenciando o Ego 1

A solução não é "parar de pensar" à força — o que geralmente só aumenta o ruído —, mas sim ocupar a mente de forma funcional, permitindo que o Ego 2 trabalhe.


A. A Arte da Concentração Relaxada

Gallwey propõe substituir o julgamento pela observação isenta. Em vez de tentar "bater bem" na bola (um comando julgador), o atleta deve se instruir a apenas "observar as costuras da bola girando".


  • Por que funciona: Isso mantém o Ego 1 ocupado com uma tarefa de observação neutra, liberando o canal motor para o Ego 2 executar o movimento sem interferência.


B. Visualização do Desfecho (Imagem vs. Palavra)

O sistema motor entende imagens melhor do que palavras. Comandos verbais ("não erra", "levanta o braço") ativam o Ego 1. Imagens sensoriais ativam o Ego 2.


  • Prática: Antes da ação, visualize a trajetória desejada ou a sensação cinestésica do movimento perfeito. Entregue essa imagem ao corpo e confie na execução, "deixando acontecer" em vez de "fazer acontecer".


C. Rotinas de Pré-Desempenho (PPRs)

Estruture o tempo antes da ação para bloquear pensamentos intrusivos. Uma rotina consistente (respiração, foco visual, self-talk instrucional curto) serve como um gatilho para o modo automático, reduzindo a janela de oportunidade para o Ego 1 duvidar da capacidade do atleta.


Confie na Inteligência do Corpo

A excelência no esporte de precisão exige uma parceria interna. O papel da mente consciente (Ego 1) é definir o objetivo; o papel do corpo (Ego 2) é realizar a tarefa. O "choking" ou a lentidão na reação surgem quando essa hierarquia é quebrada pela desconfiança.


O verdadeiro domínio mental, portanto, não vem do controle férreo de cada detalhe, mas da coragem de abandonar o controle consciente no momento da ação. Como ensina Gallwey, o segredo é aprender a "focar a mente para ver, ouvir e sentir o que realmente está acontecendo", permitindo que a complexidade do nosso sistema biológico opere em sua potência máxima.

Como as Emoções e o Julgamento Modulam o Tempo de Reação
Como as Emoções e o Julgamento Modulam o Tempo de Reação

Referências Bibliográficas

  • BAUMEISTER, Roy F.; SHOWERS, Carolin J. A review of paradoxical performance effects: Choking under pressure in sports and mental tests. European Journal of Social Psychology, 1986.

  • BEILOCK, Sian L.; GRAY, Rob. Why Do Athletes Choke under Pressure? In: Handbook of Sport Psychology. 3. ed. Wiley, 2007.

  • GALLWEY, W. Timothy. O Jogo Interior de Tênis. (Edição analisada em PDF).

  • JANELLE, Christopher M.; FAWVER, Bradley; BEATTY, Garrett F. Emotion and Sport Performance. In: Handbook of Sport Psychology. 4. ed. Wiley, 2018.

  • ORBACH, Iris; BLUMENSTEIN, Boris. Preparatory routines for emotional regulation in performance enhancement. Frontiers in Psychology, 2022.

  • OUDEJANS, Raoul R. D. et al. Thoughts and attention of athletes under pressure. Anxiety, Stress, & Coping, 2011.

  • WEINBERG, Robert S.; GOULD, Daniel. Fundamentos da Psicologia do Esporte e do Exercício. 6. ed. Artmed, 2017.

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