top of page

A pessoa antes do jogador

Foto do escritor: Markus Lothar Fourier
Markus Lothar Fourier
28 de set.
14 min de leitura

Transtorno mental é pelo menos tão comum na elite do esporte quanto no resto da população, e mente e corpo funcionam como um sistema só. Então por que a preparação psicológica no esporte tantas vezes para no treino de técnicas, se a causa costuma estar mais no fundo? Aqui vai um argumento a favor de ir mais fundo, e de como isso pode se traduzir em rendimento melhor. Vale para o profissional que vive disso, para quem joga por amor nos fins de semana, para o treinador que monta o time e para quem leva o filho ou a filha ao treino de terça-feira.


No dia 27 de julho de 2021, no meio da final por equipes da ginástica em Tóquio, a atleta mais premiada da história do seu esporte deu um salto e, por um instante, não soube onde estava no ar. Simone Biles pousou fora do tempo, trocou algumas palavras com a comissão e saiu da competição. O mundo viu um colapso sem explicação. Dentro do ginásio, aquilo tinha nome: os twisties, uma perda de sincronia entre cérebro e corpo, em que a atleta deixa de saber onde o próprio corpo está no espaço. Anos depois, Biles deu a leitura mais desconfortável do episódio. Aquilo, segundo ela, foi o resultado inevitável de anos evitando lidar com o trauma que o esporte tinha acumulado. "Não dá para comprimir o trauma por tanto tempo."


Guarde essa frase, porque ela desmonta a história que a maior parte do esporte profissional ainda prefere contar. Biles não foi vítima de fraqueza mental num momento de pressão. Foi vítima de uma dívida psíquica, acumulada, com juros, que finalmente venceu no pior lugar possível: no ar, entre um salto e um pouso, no ponto exato em que o corpo mais precisa de uma mente organizada. Ela parou por quase dois anos, fez terapia toda quinta-feira (inclusive durante o Mundial de 2023 e durante os Jogos de Paris) e voltou em 2024 para ganhar mais três ouros e uma prata. A conclusão dela é direta: o trabalho mental "valeu a pena". Não como consolo. Como rendimento.


E é isso que este texto quer defender, sem sentimentalismo. No alto nível, saúde mental e autoconhecimento não podem mais ser tratados como um "apoio". Eles são a base sobre a qual o desempenho acontece. Ignorar o lado mental por inteiro deixou de ser só uma questão ética. Virou uma decisão de gestão que deixa dinheiro, títulos e carreiras na mesa. O modelo que domina a preparação psicológica no esporte é bem-intencionado e útil em muitos casos, mas foi montado para tratar o sintoma e passar longe da causa.


Uma ilustração minimalista mostra uma árvore com características humanas, simbolizando a conexão e a integração do indivíduo com a natureza e seu núcleo interno.
Uma ilustração minimalista mostra uma árvore com características humanas, simbolizando a conexão e a integração do indivíduo com a natureza e seu núcleo interno.

O mito do inquebrável

Vamos começar pela ideia que organiza quase tudo. O esporte de elite acredita que só os muito fortes emocionalmente chegam ao topo, e que, por isso, transtorno mental é coisa que não existe no profissional de ponta. É uma ideia confortável para dirigentes e patrocinadores, do tipo que rende boa frase em entrevista coletiva. E é falsa.


O psiquiatra Valentin Markser, do Instituto de Psiquiatria do Esporte de Colônia, foi um dos que enfrentaram isso de frente: transtornos mentais são tão comuns no esporte profissional quanto na população em geral. Uma revisão de sessenta estudos sobre a saúde mental de atletas de elite confirmou a afirmação. A Sociedade Internacional de Psicologia do Esporte vai além. Ela sustenta que atletas ainda convivem com fatores de risco extras (cargas altíssimas de treino, competição implacável, uma vida cronicamente estressante) e que os números de sofrimento psíquico vêm crescendo, não caindo.


Então, para quem monta elenco, fica o recado: a ideia de que o topo é um filtro que só deixa passar os invulneráveis está errada. O topo, se é alguma coisa, é um amplificador de pressão. E tem um efeito perverso embutido. Quanto mais longe o atleta chega, mais suscetível fica à depressão ligada ao fracasso. Pesquisas sobre depressão baseada na falha mostram que estar na elite absoluta aumenta a vulnerabilidade a uma performance ruim, e não o contrário. O jogador que "não pode falhar" é justamente o mais exposto ao estrago psíquico da falha.


Mente e corpo são o mesmo sistema

Se a primeira ideia falsa é sobre quem sofre, a segunda é sobre onde o sofrimento aparece. A cultura esportiva ainda trata a parte mental como um departamento separado, um "nice to have" que não tem o mesmo peso nem a mesma voz que os departamentos técnicos. Como se o que se passa na cabeça do atleta não mexesse direto no corpo. Só que as evidências apontam para outro lado: no esporte, a fronteira entre mente e corpo é ficção.


Os twisties de Biles mostram isso: uma desconexão entre cérebro e corpo que aparece como falha de movimento. E não fica só na ginástica. Um estudo com jogadores profissionais suecos identificou ansiedade, estresse por eventos ruins de vida e o acúmulo de aborrecimentos do dia a dia como preditores importantes de lesão. Um estudo norueguês com jogadoras de elite foi ainda mais específico e revelador. Atletas que apontam as próprias companheiras como fonte de estresse têm mais risco de lesão aguda. As que apontam o treinador têm mais risco de lesão por sobrecarga. Ou seja, o estresse não fica só na cabeça. Ele chega na musculatura e nos ligamentos.


E, como mente e corpo estão ligados, o caminho vai nos dois sentidos. Uma pesquisa com futebolistas profissionais europeus mostrou que quem sofreu uma ou mais lesões graves na carreira tem de duas a quase quatro vezes mais chance de relatar sintomas de transtornos mentais comuns, como sofrimento psíquico, ansiedade, depressão e distúrbio do sono. O mesmo levantamento ligou lesão a comportamento alimentar prejudicial em quase 60% dos casos, e a uso nocivo de álcool em 10%. A lesão não é um problema de ortopedia com um humor triste por cima. É um evento que atinge a pessoa inteira. Ele afeta direto a biomecânica, a fisiologia e a disponibilidade do atleta ao longo da temporada. Tratar o psíquico como coisa secundária é o mesmo que ignorar metade das variáveis que decidem quantos jogos aquele atleta vai conseguir jogar, profissional ou não.


Psicologia do esporte é mais do que treino mental

Aqui está o ponto cego mais caro do setor. Do jeito que é vendida e contratada, a psicologia do esporte é quase sempre um cardápio de técnicas: self-talk, visualização, definição de metas, relaxamento, rotinas de pré-jogo. São ferramentas úteis e, muitas vezes, indispensáveis. Entregam ganhos visíveis, ensinam o atleta a regular o próprio nível de ativação e costumam ser a porta de entrada legítima do trabalho psicológico. O problema não está no que elas fazem. Está em parar nelas, por dois motivos: um ético, o de oferecer cuidado de verdade ao atleta, e outro prático, porque sozinhas essas técnicas mexem só na ponta do iceberg.


O modelo trata o desempenho como se fosse falta de técnica, como se o jogador que trava sob pressão travasse por não conhecer a respiração diafragmática. Como observam pesquisadores da área, a psicologia esportiva tende a focar em ensinar habilidades como forma de melhorar o rendimento, em vez de olhar para as questões de fundo que talvez estejam criando o problema de rendimento. É a diferença entre pôr uma compressa fria na testa para baixar a febre e tratar a infecção.


A regulação emocional (respiração, relaxamento, foco no presente) resolve bem a ansiedade que é, de fato, só excesso de ativação. Mas ansiedade nem sempre é só isso. Quando ela nasce de um conflito, de algo que o atleta não consegue nomear, ela tem várias camadas e não cede a uma técnica de prateleira, por melhor que a técnica seja. E tem um agravante: quando você abafa o sintoma sem tocar na causa, ele não some. Ele volta, ou muda de lugar. O medo que você bloqueou antes de cobrar o pênalti reaparece como irritação com o árbitro, como uma lesão "sem explicação", como uma queda de motivação que ninguém consegue mapear. Uma saída rápida que parece funcionar hoje e cobra caro depois. Isso não é um ataque à técnica, que é fundamental. É um alerta para não confundir a parte com o todo.


O que move um atleta é, em boa parte, invisível

Dá para entender a resistência a ir mais fundo. Clube e atleta têm calendário apertado, o tempo é curto, a rotina é corrida, e aprofundar exige tempo, exige não ter pressa. Aprofundar vai na contramão da necessidade e da cultura do esporte. Mesmo assim, vale lembrar: boa parte do que decide o rendimento de um atleta simplesmente não está disponível para a consciência dele, nem para a do treinador.


Já faz tempo que as pesquisas mostram que um movimento esportivo é executado, em grande parte, por uma inteligência que não é consciente. A memória motora funciona melhor quando a cabeça para de interferir, e trava quando o controle consciente tenta assumir o volante. Só que, além dessa camada do automatismo motor, tem uma segunda que me parece ainda mais importante, e que quase não aparece na literatura nem na cultura do esporte de elite. Falo dos desejos, das vontades, dos medos e dos conflitos que decidem se o atleta vai deixar o corpo jogar.


Pegue a motivação, que toda comissão técnica jura acompanhar. Do ponto de vista de uma psicologia da profundidade, motivação é desejo, e desejo é, na parte mais forte dele, inconsciente. O que levou aquele jogador ao futebol (dinheiro, fama, amor pelo jogo) é a resposta consciente, quase sempre uma racionalização. O motor de verdade costuma ser outro, e é justamente esse que precisa ser trabalhado quando a motivação despenca sem motivo aparente, seja no profissional que perde o brilho de repente, seja no amador que começa a arrumar desculpa pra faltar o treino de terça. A fala, como resumiu Lacan, nunca diz toda a verdade sobre o desejo. Um jogador dificilmente vai admitir, para si mesmo e menos ainda para o clube, que não quer mais vencer. Escala e questionário não chegam lá.


Some a isso a resistência, um conceito que a psicologia do esporte quase ignora. Muitos atletas sabem que precisam de ajuda e mesmo assim não procuram, ou largam rápido. As personalidades narcisistas, comuns no meio profissional, são as mais resistentes, presas ao medo da dependência e à recusa de mostrar a própria fragilidade, o que, convenhamos, não chega a ser surpresa para quem já entrou num vestiário de time grande. A cultura masculina do futebol piora tudo, tratando emoção como território feminino e, por isso, como ameaça à identidade. O resultado é um sistema em que quem mais precisa falar é, também, quem foi mais bem treinado pra ficar calado.


E tem a transferência, talvez o conceito de retorno mais imediato para um treinador. Sem perceber, o jogador projeta sobre o técnico e os colegas afetos que pertencem a figuras do passado. O treinador vira pai ou mãe. O colega vira irmão. O rival vira aquele rival da infância. Isso não é poesia. Tem efeito concreto no gramado. O exemplo mais didático é a sabotagem inconsciente. O defensor que ficou no banco volta a jogar querendo de verdade a vitória do time e, mesmo assim, comete o pênalti "bobo" que entrega o jogo. Ele está punindo, sem saber, o técnico transformado em figura paterna. O consciente quer ganhar. O inconsciente cobra uma dívida antiga. Enquanto essa conta não vem à tona, nenhum esquema tático dá conta dela.


O caso de Dele Alli é a versão trágica e clara desse mecanismo. Uma das maiores promessas do futebol inglês, titular da seleção que foi à semifinal da Copa de 2018, viu a carreira desmoronar sem que ninguém entendesse por quê. Anos depois, numa entrevista a Gary Neville, ele contou o que estava por baixo: um trauma grave de infância e uma dependência de comprimidos para dormir que, nas palavras dele, servia para anestesiar sentimentos que ele nem sabia que estava anestesiando. "Eu nunca estava lidando com a raiz do problema", disse. E ofereceu, quase sem querer, a explicação exata de por que ir mais fundo não pode ser imposto de fora: "Com esse tipo de coisa, ninguém pode te mandar. Você tem que saber, e a decisão tem que partir de você, senão não funciona." Tornar consciente o que operava no escuro, para o sujeito então poder decidir: é isso que a análise faz. Ela devolve ao atleta o controle de um motor que rodava sem ele.


Conhecer-se como vantagem competitiva

Agora vire a moeda. Se o inconsciente pode sabotar, o autoconhecimento pode liberar, e liberar rendimento que estava travado. Aqui a linguagem do esporte é até mais honesta que a da autoajuda, porque os próprios atletas de elite falam disso sem floreio.

Georges St-Pierre, um dos maiores lutadores da história do MMA, escreveu que, em qualquer combate, basta conhecer duas pessoas para vencer, você e seu adversário, e que a mais difícil de conhecer é a primeira. Ele descreve exatamente como perdeu algumas lutas: levado pelas próprias emoções, sem o controle que o autoconhecimento daria. Parece frase de camisa de academia, eu sei, mas no fundo é um diagnóstico de derrota.


O mecanismo aparece até onde você menos espera. Quando uma jogadora é escalada para marcar uma adversária que nunca enfrentou, sobre quem só viu vídeo, esse desconhecimento não é neutro. Ele abre espaço para a projeção. Um detalhe qualquer da outra (o nariz, o olhar, o mesmo nome de uma irmã mais velha temida) pode disparar uma transferência que trava a marcadora sem que ninguém, ela inclusive, entenda a queda de rendimento. Desmontar a imagem que o atleta faz do adversário, trazer à consciência o que está sendo projetado, é uma intervenção de desempenho tão concreta quanto ajustar a linha de marcação.


O caso de Andrés Iniesta amarra esse argumento pelo lado do rendimento. Depois de ganhar a Champions de 2009, ele emendou uma lesão com o luto pela morte do amigo Dani Jarque e afundou numa depressão que descreveu como um clarear que vira escuro, um não se reconhecer. Passou a fazer sessões com uma psicóloga. E o que Guardiola disse na época resume toda a tese deste texto numa frase que devia estar pregada em todo centro de treinamento: o mais importante agora é o Andrés, a pessoa, não o jogador. Meses depois, Iniesta fez o gol do título da Copa do Mundo de 2010. Cuidar da pessoa não atrapalhou o jogador. Foi o que devolveu o jogador.


A lesão como raio-x da pessoa inteira

Nenhum evento mostra melhor a unidade da pessoa do que a lesão grave. E nenhum é pior tratado. O clube conta os dias de recuperação física e devolve ao gramado um corpo curado, mas costuma ignorar como o atleta está voltando por dentro.

Alex Morgan, campeã mundial, contou que se recuperar emocionalmente de uma ruptura de ligamento aos dezessete anos levou mais tempo do que curar fisicamente. Ela voltou ao campo em cinco meses, mas demorou quase um ano para reencontrar a confiança e a agressividade de antes. Anos depois, uma dor no mesmo joelho, num choque, foi descrita por ela como "aterrorizante". O trauma original seguia vivo, pronto para voltar. Abby Wambach foi mais seca: depois que você machuca o joelho, você nunca mais é o mesmo. Parece derrotismo. É descrição clínica: a lesão deixa marca na identidade do atleta, e essa marca não sara junto com o ligamento.


As consequências podem ser medidas, e são caras. Já vimos que uma lesão grave multiplica de duas a quase quatro vezes o risco de transtornos mentais comuns. Revisões apontam ainda taxas altas de estresse pós-traumático em grupos de atletas, entre 13% e 25% em alguns casos, com sintomas de evitação e hipervigilância que, num círculo cruel, atrasam a recuperação do próprio corpo. O corpo não volta porque a mente não deixou. E o risco extremo é real. Ele é mais alto justamente nos jogadores jovens muito bem-sucedidos, cuja lesão exige cirurgia e longa reabilitação, e que fizeram do esporte a principal fonte de identidade. Quando o esporte é tudo o que a pessoa é, perdê-lo por seis meses pesa muito mais do que o tempo de fisioterapia sugere.


Aqui vai um recado direto para quem acompanha um atleta jovem, dentro e fora do clube: a implicação prática é clara. Uma reabilitação que ignora a dimensão psíquica é uma reabilitação pela metade. Ela devolve um ativo fisicamente apto e funcionalmente diminuído, e alguém pagou pelo inteiro.


O que isso exige de um clube

Até aqui, o argumento foi sobre o indivíduo. O erro seria parar nele. O que a evidência descreve não é uma soma de fragilidades pessoais para terceirizar a um profissional discreto. É um problema de sistema, e portanto de gestão, de comissão técnica e de clube.


O modelo quick-fix é popular por um motivo nada nobre: é barato e cabe no calendário. Contrata-se um profissional de renome, pede-se a ele algumas palestras motivacionais ou dinâmicas de grupo. Se, em algumas poucas rodadas, o resultado não vem, mandam embora. Se der resultado, todo mundo sai satisfeito, principalmente quem assinou o contrato, ainda que o resultado não seja sustentável no longo prazo. O custo real dessa economia aparece depois, em aposentadorias precoces, em desempenho abaixo do esperado que ninguém consegue explicar, em ativos caros que rendem menos do que valem. Ir mais fundo custa mais no curto prazo, e é o único caminho que produz o que interessa a uma organização de verdade: mudança que se sustenta, no atleta, na comissão e na instituição.


Disso saem decisões concretas. A primeira é sobre a figura do profissional. O clube ganha ao ter alguém que funcione como um terceiro neutro entre técnico e jogadores, e entre os próprios jogadores. Alguém a quem se possa confiar informação sensível sem medo de que ela vaze, o que hoje é raro e que os atletas quase nunca encontram. A segunda é sobre a formação do treinador. O técnico é, quase sempre, uma figura parental para o elenco, e o vínculo afetivo que se forma ali (a transferência e a contratransferência) tem poder enorme sobre motivação, qualidade de treino e desempenho. Mesmo assim, como lamentam os pesquisadores, as ferramentas para lidar com essa dinâmica estão fora da maioria dos currículos de formação de treinadores. Ensina-se sistema tático até a exaustão. Sobre o próprio treinador virar, sem querer, uma figura paterna com poder de arruinar o fim de semana de um adulto de 1,90 metro, quase nada. Um técnico que não reconhece a própria contratransferência tende a reprimir o que sente pelo jogador e, com isso, fica autoritário, distante, sem empatia. Ou, no extremo oposto, projeta no atleta o jogador que ele mesmo não conseguiu ser. Formar treinador nessa gramática não é luxo terapêutico. Pesquisas em gestão esportiva apontam inteligência analítica e emocional como fatores-chave da eficiência de um treinador.


A terceira decisão é sobre cultura. Clubes novos (as franquias recém-criadas das ligas femininas nos Estados Unidos são o exemplo) precisam construir uma cultura do zero, e isso, como raiz de árvore, não se faz da noite para o dia. É um processo em que um profissional treinado em profundidade ajuda, conduzindo elenco e comissão a colocar na mesa e negociar os valores que a instituição diz ter. Cultura de vestiário não é cartaz na parede. É o conjunto de acordos, quase sempre implícitos, sobre o que se pode sentir e dizer ali dentro. Ou, dito de outra forma, a cultura é como as regras de uma cadeia: não estão escritas em lugar algum, mas todos sabem que elas existem e como operam.


A pessoa, não o jogador

No fim, vale a honestidade que separa um argumento sério de um panfleto. A psicanálise e as terapias de profundidade não são bala de prata. A literatura que testa a eficácia delas especificamente no esporte de elite ainda é mais argumentativa do que experimental, esparsa, em boa parte anedótica, e reconhece isso. Nenhum quadro teórico sozinho dá conta da complexidade do funcionamento humano. Nem a psicologia cognitivo-comportamental, nem a psicanálise, nem nenhum outro. As abordagens não são rivais. São complementares, e o profissional competente combina o que cada uma faz de melhor. E ir mais fundo exige aquilo que o esporte tem de mais escasso: tempo.


Mas a direção do retorno é clara, e não depende de escolher uma escola. O que a evidência sustenta, sem pedir fé, é o seguinte: o desempenho de elite é um fenômeno da pessoa inteira, mente e corpo são um sistema só, tratar sintoma sem causa é adiar o problema com juros, e o autoconhecimento, chame como quiser, é o único jeito de destravar capacidade que a técnica sozinha não alcança. Um plano tático perfeito executado por jogadores de desejo frágil ainda perde. Mais vezes do que se admite, uma final se decide por qual dos dois lados quer mais. E querer, no sentido forte, é assunto que não mora na superfície.


A frase de Guardiola sobre Iniesta não foi um gesto de bondade. Foi uma tese de desempenho, dita por acidente. O atleta é uma pessoa antes de ser um ativo, e tratá-lo como um punhado de indicadores físicos é, muito literalmente, deixar rendimento na mesa. Biles não voltou a vencer apesar de ter parado para cuidar da mente. Ela venceu porque parou. A pessoa antes do jogador não é uma concessão sentimental que o esporte de alto rendimento faz contra os próprios interesses. É a condição para atender a esses interesses, mesmo quando o interesse em jogo é só não estragar o sábado do futebol com os amigos.


Bonecas russas representando diferentes esportes e emoções, ilustrando a importância da psicologia no esporte.
Bonecas russas representando diferentes esportes e emoções, ilustrando a importância da psicologia no esporte.

Referência Bibliográfica


COCHAND, Delphine. Applied psychoanalysis: enhancing soccer performance… ahead and beyond. [S. l.: s. n.], 2019. Disponível em: https://www.academia.edu/40130999/Applied_psychoanalysis_Enhancing_soccer_performance_ahead_and_beyond.

Este texto parte de um artigo autoral de Cochand (2019) — perspectiva de uma psicanalista clínica, não estudo empírico revisado por pares. A leitura psicanalítica é oferecida como argumento; os dados citados vêm de estudos revisados por pares e sustentam-se por si.


Comentários


bottom of page